As várias faces do verbo TOMAR

Lembram-se do nosso post sobre os verbos Beber ou tomar água? Hoje iremos aprofundar alguns aspectos do verbo tomar, que além de ser usado com sentido de beber, como vimos, pode assumir também significados diferentes e bem amplos. Prestem atenção nos exemplos:

1) Tomou a criança pelas mãos e atravessou a rua. (tomar = agarrar, segurar, pegar)

2) Quer tomar o café da manhã agora? (tomar = alimentar-se)

3) Os militares conseguiram tomar o controle da situação dentro da comunidade. (tomar = obter, estabelecer, restaurar)

4) Ler todas as mensagens que recebo durante o dia me toma muito tempo. (tomar = consumir)

5) Já tomou o seu remédio hoje? (tomar = ingerir)

6) Gosto muito de tomar sopa. (tomar = comer; dizemos tomar, obviamente, porque é líquido. Quando o alimento é sólido, dizemos comer)

7) Carlos tomou o ônibus na estação central. (tomar = pegar)

8) As ruas foram tomadas por manifestantes. (tomar = ocupar)

9) Ao sair às ruas depois das 22h, é necessário tomar muito cuidado. (tomar cuidado = ter cuidado)

10) Aninha adora tomar sorvete. (tomar = comer)

11) Ana vai tomar banho (tomar banho = lavar-se)

12) A professora quis tomar explicações sobre o ocorrido entre os dois alunos. (tomar = pedir)

13) A conversa entre as duas amigas tomou um rumo muito ofensivo. (tomar = seguir)

14) Espero que tenham gostado do post. Se tiverem alguma sugestão para os próximos, por favor, deixem-na nos comentários!

Um abraço!

Claudia V. Lopes

Sobre a Língua Portuguesa

Por que é importante conhecer bem a língua portuguesa?

Conhecer bem a NOSSA LÍNGUA é um passo essencial para ampliarmos nossos horizontes. Através desse conhecimento, podemos:

a) nos expressar melhor e ampliar as chances de conquistarmos atenção e respeito dos interlocutores;

b) ler e compreender plenamente diferentes tipos de texto, mesmo os mais complexos;

c) expressar com clareza sentimentos e opiniões, para que ouçam e entendam;

d) escrever de forma atraente e coerente com o que pretendemos comunicar;

f) elevar o nosso nível cultural e apreciar plenamente cada nova informação adquirida.

A língua portuguesa no mundo

A língua portuguesa é o idioma oficial de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste.

Em cada um desses países, nossa língua incorporou palavras nativas, pronúncias próprias e formas diferentes de construir frases. Mas em todos eles, foi mantida a unidade com Portugal consolidada através de acordos ortográficos.

Nosso idioma também é conhecido em outras localidades do mundo, povoadas pelos portugueses no século XVI. São elas: Zanzibar, na Tanzânia (costa oriental da Ásia); Macau, território encravado na China que foi administrado pelos portugueses durante cerca de 400 anos; Goa, Diu, na Índia; e Malaca, cidade da Malásia declarada patrimônio mundial pela Unesco em 2008.

Atualmente, a língua portuguesa é a quarta língua mais falada no mundo, e este universo de falantes representa mais de 7% de toda a superfície continental da Terra.

De acordo com informações divulgadas pelo Instituo Camões, o português é a língua que apresenta uma das taxas de crescimento mais elevadas nas redes sociais, bem como na aprendizagem como língua estrangeira.

Até breve e bons estudos!

Cláudia V. Lopes

Se gostou do post, curta e compartilhe com seus amigos!

Castro Alves – O Navio Negreiro (Tragédia no mar)

Caros amigos,

Hoje compartilhamos com vocês “O navio negreiro”, poema de autoria de um dos mais importantes poetas do Romantismo Brasileiro do século XIX chamado Castro Alves  (Muritiba, 14 de março de 1847 – Salvador, 6 de julho de 1871), considerado o maior defensor do abolicionismo, por isso mesmo, denominado “O poeta dos escravos”.

Castro-Alves_1

(Créditos da imagem – Wikipédia)

Castro Alves destaca-se na poesia de caráter social. É o poeta da liberdade, denunciando desigualdades sociais, lutando sempre a favor dos oprimidos. Além da poesia de caráter social, Castro Alves destaca-se como autor de poemas líricos-amorosos em que o amor e a mulher são menos idealizados. (Literatura Brasileira, Faraco e Moura)

No poema é descrito um cenário apocalíptico de muita dor e sofrimento dum povo – africanos escravizados – levado à força para o outro lado do oceano em condições desumanas. As cenas, detalhadamente descritas, são contemporâneas, se comparadas à atual emergência humanitária que assistimos todos os dias na televisão: seres humanos que fogem de sua terra natal em função das guerras constantes e de bombardeamentos, que arriscam a vida em embarcações rumo à viagem da esperança. Seres humanos desfrutados por outros seres, mas não humanos, responsáveis pelo tráfico desumano de pessoas.

navio negreiro

(créditos da imagem – Uol educacional)

O Navio Negreiro
(Tragédia no mar)

‘Stamos em pleno mar… Doudo no espaço
Brinca o luar — dourada borboleta;
E as vagas após ele correm… cansam
Como turba de infantes inquieta.

‘Stamos em pleno mar… Do firmamento
Os astros saltam como espumas de ouro…
O mar em troca acende as ardentias,
— Constelações do líquido tesouro…

‘Stamos em pleno mar… Dois infinitos
Ali se estreitam num abraço insano,
Azuis, dourados, plácidos, sublimes…
Qual dos dous é o céu? qual o oceano?…

‘Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas
Ao quente arfar das virações marinhas,
Veleiro brigue corre à flor dos mares,
Como roçam na vaga as andorinhas…

Donde vem? onde vai? Das naus errantes
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?
Neste saara os corcéis o pó levantam,
Galopam, voam, mas não deixam traço.

Bem feliz quem ali pode nest’hora
Sentir deste painel a majestade!
Embaixo — o mar em cima — o firmamento…
E no mar e no céu — a imensidade!

Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!
Que música suave ao longe soa!
Meu Deus! como é sublime um canto ardente
Pelas vagas sem fim boiando à toa!

Homens do mar! ó rudes marinheiros,
Tostados pelo sol dos quatro mundos!
Crianças que a procela acalentara
No berço destes pélagos profundos!

Esperai! esperai! deixai que eu beba
Esta selvagem, livre poesia,
Orquestra — é o mar, que ruge pela proa,
E o vento, que nas cordas assobia…
………………………………………………….
Por que foges assim, barco ligeiro?
Por que foges do pávido poeta?
Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira
Que semelha no mar — doudo cometa!

Albatroz! Albatroz! águia do oceano,
Tu que dormes das nuvens entre as gazas,
Sacode as penas, Leviathan do espaço,
Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas.

II

Que importa do nauta o berço,
Donde é filho, qual seu lar?
Ama a cadência do verso
Que lhe ensina o velho mar!
Cantai! que a morte é divina!
Resvala o brigue à bolina
Como golfinho veloz.
Presa ao mastro da mezena
Saudosa bandeira acena
As vagas que deixa após.

Do Espanhol as cantilenas
Requebradas de langor,
Lembram as moças morenas,
As andaluzas em flor!
Da Itália o filho indolente
Canta Veneza dormente,
— Terra de amor e traição,
Ou do golfo no regaço
Relembra os versos de Tasso,
Junto às lavas do vulcão!

O Inglês — marinheiro frio,
Que ao nascer no mar se achou,
(Porque a Inglaterra é um navio,
Que Deus na Mancha ancorou),
Rijo entoa pátrias glórias,
Lembrando, orgulhoso, histórias
De Nelson e de Aboukir.. .
O Francês — predestinado —
Canta os louros do passado
E os loureiros do porvir!

Os marinheiros Helenos,
Que a vaga jônia criou,
Belos piratas morenos
Do mar que Ulisses cortou,
Homens que Fídias talhara,
Vão cantando em noite clara
Versos que Homero gemeu…
Nautas de todas as plagas,
Vós sabeis achar nas vagas
As melodias do céu!…

III
Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!
Desce mais … inda mais… não pode olhar humano
Como o teu mergulhar no brigue voador!
Mas que vejo eu aí… Que quadro d’amarguras!
É canto funeral! … Que tétricas figuras! …
Que cena infame e vil… Meu Deus! Meu Deus! Que horror!
IV
Era um sonho dantesco… o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros… estalar de açoite…
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar…

Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras moças, mas nuas e espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs!

E ri-se a orquestra irônica, estridente…
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais …
Se o velho arqueja, se no chão resvala,
Ouvem-se gritos… o chicote estala.
E voam mais e mais…

Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece,
Outro, que martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!

No entanto o capitão manda a manobra,
E após fitando o céu que se desdobra,
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
“Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!…”

E ri-se a orquestra irônica, estridente. . .
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais…
Qual um sonho dantesco as sombras voam!…
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
E ri-se Satanás!…
V
Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura… se é verdade
Tanto horror perante os céus?!
Ó mar, por que não apagas
Co’a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?…
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!

Quem são estes desgraçados
Que não encontram em vós
Mais que o rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz?
Quem são? Se a estrela se cala,
Se a vaga à pressa resvala
Como um cúmplice fugaz,
Perante a noite confusa…
Dize-o tu, severa Musa,
Musa libérrima, audaz!…

São os filhos do deserto,
Onde a terra esposa a luz.
Onde vive em campo aberto
A tribo dos homens nus…
São os guerreiros ousados
Que com os tigres mosqueados
Combatem na solidão.
Ontem simples, fortes, bravos.
Hoje míseros escravos,
Sem luz, sem ar, sem razão…

São mulheres desgraçadas,
Como Agar o foi também.
Que sedentas, alquebradas,
De longe… bem longe vêm…
Trazendo com tíbios passos,
Filhos e algemas nos braços,
N’alma — lágrimas e fel…
Como Agar sofrendo tanto,
Que nem o leite de pranto
Têm que dar para Ismael.

Lá nas areias infindas,
Das palmeiras no país,
Nasceram crianças lindas,
Viveram moças gentis…
Passa um dia a caravana,
Quando a virgem na cabana
Cisma da noite nos véus …
…Adeus, ó choça do monte,
…Adeus, palmeiras da fonte!…
…Adeus, amores… adeus!…

Depois, o areal extenso…
Depois, o oceano de pó.
Depois no horizonte imenso
Desertos… desertos só…
E a fome, o cansaço, a sede…
Ai! quanto infeliz que cede,
E cai p’ra não mais s’erguer!…
Vaga um lugar na cadeia,
Mas o chacal sobre a areia
Acha um corpo que roer.

Ontem a Serra Leoa,
A guerra, a caça ao leão,
O sono dormido à toa
Sob as tendas d’amplidão!
Hoje… o porão negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar…
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar…

Ontem plena liberdade,
A vontade por poder…
Hoje… cúm’lo de maldade,
Nem são livres p’ra morrer. .
Prende-os a mesma corrente
— Férrea, lúgubre serpente —
Nas roscas da escravidão.
E assim zombando da morte,
Dança a lúgubre coorte
Ao som do açoute… Irrisão!…

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus,
Se eu deliro… ou se é verdade
Tanto horror perante os céus?!…
Ó mar, por que não apagas
Co’a esponja de tuas vagas
Do teu manto este borrão?
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!…

VI
Existe um povo que a bandeira empresta
P’ra cobrir tanta infâmia e cobardia!…
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!…
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio. Musa… chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto!…
Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança…
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!…

Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu nas vagas,
Como um íris no pélago profundo!
Mas é infâmia demais! … Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares!

São Paulo, 18 de abril de 1869.
(O Poeta, nascido em 14.03.1847,
tinha apenas 22 anos de idade)