Origem do vocábulo “sincero”

Olá, pessoal!

O adjetivo “sincero” talvez sejam um dos mais usados pelos falantes do português, pois está presente em várias expressões, tais como: “para ser sincero/a”, “estou sendo sincero/a com você”, ou até mesmo em sua forma adverbial “sinceramente falando”, etc. Uma pessoa sincera é uma pessoa que fala o que sente, sem dissimular, sem artimanhas e sem esconder nada do outro. Mas qual é a sua origem?

sine cera

(créditos da imagem – strength4thejourney)

De acordo com estudos etimológicos, o vocábulo “sincero”, presente em várias línguas modernas, deriva da união de dois vocábulos latinos: sine e cera > sincerus, ou seja, sem mistura, por extensão: leal, franco, verdadeiro. Acredita-se, porém, que se tenha originado partir de um antigo hábito que alguns escultores desonestos de Roma tinham: passava-se uma cera especial em esculturas de mármore, a fim de esconder eventuais imperfeições e defeitos do próprio material, enganando, desse modo, os compradores.

Com o tempo, as pessoas que compravam as esculturas davam-se conta das imperfeiçoes e descobriam que tinham sido realizadas “cum cera“. O senado romano teria, então, decretado uma leia que obrigava que todas as esculturas fossem vendidas “sine cera“, isto é, sem cera, sem trapaça, dando origem ao vocábulo “sincero”.

Contudo, existe uma outra versão para a sua origem: os romanos, pelo que sabemos, apreciavam muito certos vasos que eram fabricados com uma cera tão pura e perfeita que os tornavam transparentes, sendo possível distinguir alguns objetos colocados dentro deles.

Não importa qual seja a versão mais confiável, o fato é que, com o passar dos séculos, o vocábulo começou a ser usado com a conotação que conhecemos hoje.

Até breve e bons estudos!

Cláudia V. Lopes

 

MAS e MAIS: quando usá-los?

Olá, pessoal!

Uma das dúvidas mais comuns da língua portuguesa (falada no Brasil) relaciona-se ao uso de “mas” e “mais“, que pertencem a classes gramaticais diferentes: mas é uma conjunção adversativa, que nos dá ideia de oposição, e pode ser substituída por “contudo”, “todavia”, “entretanto”, etc.; mais é um advérbio de intensidade/quantidade; oposto de menos.

No português brasileiro, a distinção fonética entre um é outro é mínima ou nula, pois os falantes tendem a pronunciar “mas” [mais], praticamente como pronunciam “mais” [mais]. No português europeu, isso não acontece, simplesmente porque a conjunção mas é pronunciada [mɒs], determinando, desse modo, a distinção fonética em relação ao advérbio mais.

Prestem atenção nos exemplos:

mas e mais_1

Exemplos com “mas” e “mais” juntos na mesma frase:

a) Queria comer mais sorvete de limão, mas acabou.

b) No próximo domingo tenho uma festa, mas terei que ir embora mais cedo: tenho uma prova de português na segunda-feira.

Até breve e bons estudos!

Claudia V. Lopes

O significado das coisas – Amor platônico

O amor platônico é a forma mais romântica e sublime de amor que possa existir, pois elimina completamente o aspecto físico e sensual para se concentrar apenas na alma. Essa expressão tão conhecida nasce a partir de uma teoria de Platão. Todavia, o termo amor platonicus como sinônimo de amor sacraticus foi cunhado por Marsílio Ficino (1433 – 1499), filósofo, astrólogo e o maior representante do Humanismo florentino.

amor platonico

(Detalhe, Madona Sistina – Raffaello Sanzio)

Em ambos os casos, trata-se de um amor que não há nada de físico, mas de espiritual, que se aproxima da perfeição divina. Como podemos perceber, a expressão que se tornou popular por indicar a ausência do amor carnal tem, na realidade, um valor muito mais profundo. Na língua corrente, esse tipo de amor é entendido como amor a distância, ou seja: não podemos nos aproximar do ser amado, não o podemos tocar, mas somente idealizá-lo como imagem de perfeição divina.

Platão (em grego antigo: Πλάτων, transl. Plátōn, "amplo", Atenas, 428/427 – Atenas, 348/347 a.C.) foi um filósofo e matemático do período clássico da Grécia Antiga, autor de diversos diálogos filosóficos e fundador da Academia em Atenas, a primeira instituição de educação superior do mundo ocidental. Juntamente com seu mentor, Sócrates, e seu pupilo, Aristóteles, Platão ajudou a construir os alicerces da filosofia natural, da ciência e da filosofia ocidental. (Wikipédia)
Algumas frases de amor de Platão
134 (1)

(créditos: petaladerosa)

“Não há ninguém, mesmo sem cultura, que não se torne poeta quando o amor toma conta dele.”

“Só pelo amor o homem se realiza plenamente.”

“Quem ama extremamente, deixa de viver em si e vive no que ama.”

“Todo homem é poeta quando está apaixonado.”

“O amor é a busca do todo.”

Até breve e bons estudos!

Cláudia V. Lopes

 

Sobre o porque e outros porquês

por que

Olá, pessoal!

Se entender o uso dos “porquês” é uma problema para os falantes de língua portuguesa, imaginem com será para os estrangeiros que a estão estudando! O uso dos “porquês” sempre foi um assunto muito complexo, pois suscita sempre muitas dúvidas na hora de usá-los. O que tenho visto por aí, sobre tudo nas redes sociais, é que cada um adota a forma que mais lhe convém, que é quase sempre “pq” (forma abreviada que abarca todos os porquês). Porém, vamos tentar entender juntos quais são as principais diferenças e quando devemos usar cada uma deles.

Leiam o trecho abaixo, tirado do livro Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, em que é possível ver quatro “porquês” consecutivos:

“— Estou muito zangada com o senhor. — Dizia ela.
Por quê?
Por que… Não sei por quePorque é minha sina… Creio que às vezes que é melhor morrer.
Tinham penetrado numa pequena moita: Era lusco-lusco; eu segui-os. O Vilaça levava nos olhos umas chispas de vinho e de volúpia.
— Deixe-me, disse ela.
— Ninguém nos vê. Morrer, meu anjo? Que ideias são essas! Você sabe que morrerei também… Que digo?… Morro todos os dias, de paixão, de saudades…!”

machado-de-assis

Memórias Póstumas de Brás Cubas (Capítulo XII)
Machado de Assis (Rio de Janeiro, 21 de junho de 1839 — Rio de Janeiro, 29 de setembro de 1908) foi um escritor brasileiro, amplamente considerado como o maior nome da literatura nacional.

Prestem atenção!

1) “Por que” separado tem dois empregos:

a) se houver a união da preposição “por” + pronome interrogativo ou indefinido “que” terá significado de “por qual razão” ou “por qual motivo”:

– Por que (por qual motivo, razão) você não veio ontem à universidade?

Não sei por que (por qual motivo, razão) estou tão cansada

b) se houver a união da proposição “por” + pronome relativo “que” terá o significado de “pelo qual”:

– As cidades por que (pelas quais*) passamos eram realmente belíssimas. 

* pelo qual, pelos quais, pela qual, pelas quais.

2) “Por quê” quando usado antes de um ponto (final, interrogativo, exclamativo) deverá ser acentuado, com o significado de “por qual motivo”, “por qual razão”:

 Vocês não saíram ontem? Por quê? (por qual motivo, razão)

 3) “Porque” é uma conjunção causal com valor aproximado de “pois”, “uma vez que”:

– Não viajamos porque estávamos sem dinheiro. (pois; uma vez que)

– Carla não quis sair porque estava cansada. (pois; uma vez que)

4) Porquê é um substantivo com significado de “o motivo”, “a razão”. Vem acompanhado de artigo, pronome, adjetivo ou numeral:

– Não entendo o porquê dessa sua tristeza. (o motivo, a razão)

– Dê-me um porquê para não conversarmos agora. (uma razão, um motivo)

Até breve e bons estudos!

Claudia V. Lopes

Se gostou do post, deixe-nos um cometário ou uma “curtida”.

 

Para sempre – Carlos Drummond de Andrade

 

para sempre

Olá, pessoal!

No nosso post de hoje, apresentamos a vocês um dos maiores e mais influentes poetas brasileiros chamado Carlos Drummond de Andrade (Itabira, 31 de outubro de 1902 – Rio de Janeiro, 17 de agosto de 1987). Drummond, como todos os modernistas, soube proclamar a liberdade das palavras, uma liberdade idiomática capaz de criar modelos não convencionais.

Escolhemos um poema muito especial intitulado “Para sempre”, que fala sobre a eternidade das mães, acompanhado do vídeo em que o próprio poeta o declama.

Para sempre

Por que Deus permite
Que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite
É tempo sem hora
Luz que não apaga
Quando sopra o vento
E chuva desaba
Veludo escondido
Na pele enrugada
Água pura, ar puro
Puro pensamento
Morrer acontece
Com o que é breve e passa
Sem deixar vestígio
Mãe, na sua graça
É eternidade
Por que Deus se lembra
– Mistério profundo –
De tirá-la um dia?
Fosse eu rei do mundo
Baixava uma lei:
Mãe não morre nunca
Mãe ficará sempre
Junto de seu filho
E ele, velho embora
Será pequenino
Feito grão de milho.

Bons estudos e até breve!

Cláudia V. Lopes

A estrutura da frase na língua portuguesa

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Olá, pessoal!

No nosso post de hoje, estudaremos um pouco sobre a estrutura da frase na língua portuguesa, que talvez seja um dos pontos mais críticos não só para estrangeiros, mas também para falantes de português. Aprender os diferentes tempos e modos verbais não é difícil, e tenho certeza de que muitos de vocês sabem as conjunções de cor e salteado. O problema apresenta-se, quando temos que combiná-los com coerência e coesão, sobretudo num texto escrito.

Antes de tudo, é importante que vocês saibam que a língua portuguesa é considerada uma língua SVO, que é a sigla que indica uma estrutura oracional do tipo sujeito-verbo-objeto: o sujeito surge primeiro, seguido do verbo e, por último, do objeto. Vale ressaltar que mais de 75 % das línguas do mundo seguem essa estrutura, sendo, por isso, uma das mais comuns. No alemão, latim, japonês e em algumas outras línguas a estrutura mais comum é a SOV (sujeito, objeto, verbo).

Para que possamos iniciar os nossos estudos, vamos primeiro entender alguns termos que nos acompanharão daqui para frente.

Frase, período, oração:

Embora haja numerosas definições para o termo “frase“, adotaremos apenas um, tentando desambiguá-lo, sempre que possível, em relação aos seus sinônimos, nem sempre perfeitos, “período” e “oração“.

A frase é a reunião de palavras que forma sentido completo e estabelece comunicação. Além disso, pode “expressar um juízo, indicar uma ação, estado ou fenômeno, transmitir um apelo, uma ordem ou exteriorizar emoções” (Othon M. Garcia). A frase, no português, é geralmente estruturada a partir de dois termos essenciais: sujeito e predicado. Todavia, existem orações ou frases sem sujeito: na frase “saímos”, por exemplo, o sujeito é classificado como implícito, embora a terminação do verbo nos diga, claramente, que se trata da primeira pessoa do plural “nós” do verbo “sair”. O que significam os termos sujeito e predicado?

  • sujeito é o termo da oração sobre o qual se anuncia algo e que concorda com o verbo em número e pessoa;
  • predicado é o elemento da oração que declara algo sobre outro, que é exatamente o sujeito.

De qualquer forma, é muito importante entendermos qual é o núcleo significativo da declaração: se estiver no verbo, teremos predicado verbal; se estiver em algum nome, teremos predicado nominal, típico das frases que possuem um verbo de ligação (ser, estar, andar, ficar, etc.):

a) Os meninos jogam carta. (predicado verbal – o sujeito é “os meninos”, que concorda em numero e pessoa com o verbo “jogar”. O predicado é “jogam carta“; núcleo “jogam“);

b) Ana é africana. (predicado nominal – o sujeito é “Ana”; a declaração referente à “Ana” é “é africana“; núcleo “africana“).

Para que uma frase seja considerada uma oração é necessário que o enunciado tenha sentido completo e que tenha verbo ou locução verbal:

  • Os estudantes acabaram de fazer a prova de matemática.
  • Estou fazendo o possível para terminar logo.
  • Convém que te apresses – (há duas orações em relação de subordinação, mas só uma frase).
Temos uma locução verbal quando dois ou mais verbos têm valor de um, expressão que é sempre composta por verbo auxiliar + verbo principal: está estudado = estuda; ia falando = falava.

A oração pode ser, em alguns casos, sinônimo de frase e período simples, quando exprime um pensamento completo que termina com um sinal de pontuação: ponto final (.), ponto de exclamação (!), ponto de interrogação (?).

Sobre esses pontos mais complexos, falaremos no próximo post.

Até breve e bons estudos!

Claudia V. Lopes

Após ou depois?

 

apos-e-depois

Olá, pessoal!

No nosso post de hoje, iremos estudar algumas diferenças entre o advérbio “depois” (de + latim post) e a preposição “após” (do latim ad+post), bem como entender em que contextos podem ser usados em modo distinto, como sinônimos ou, até mesmo, substituídos por outros termos. Num modo geral, ambos são usados indiscriminadamente na fala, embora convenha adotar uma padronização em situações mais formais, sobretudo na escrita, como veremos a seguir:

a) após é usado para indicar posterioridade no espaço:

A secretaria da hospital fica após o centro de pediatria.
A prefeitura fica após a escola.
O acidente aconteceu após aquela curva perigosa.

b) depois (seguido ou não da preposição “de“) é usado para indicar posterioridade no tempo:

– Por favor, tome os comprimidos depois das principais refeições.

– Podemos conversar depois?

– Depois de terminar a graduação, fará uma longa viagem pela Europa.

– Chegamos duas horas depois.

Deve-se EVITAR, porém, o uso de APÓS antes das formas nominais do verbo (infinitivo ou particípio):

- Coma somente depois de lavar as mãos.
- Qualquer medicamento perde a validade depois de aberto.

É preciso ter em mente que após é uma preposição e sua união com a preposição “a” gera redundância, por isso, é ERRADO dizer “após ao centro de pediatria“! E não devemos esquecer, também, que depois é um advérbio de tempo, razão porque é mais apropriado usá-lo come elemento que modifica o verbo: “dormirei agora e estudarei depois“, e não após.

Expressões consagradas com após:

Ano após ano; dia após dias.
Alguns casos de sinonímia e substituição

a) após/depois de (em sentido temporal):

Gosto de sentir o perfume de terra molhada após a chuva/depois da chuva.
Adormeceu, após alguns minutos/depois de alguns minutos.

b) após, atrás de, em seguida a (em sentido espacial):

Carlos sentou-se após a terceira fileira/atrás da terceira fileira/em seguida à terceira fila.

c) após/atrás de si:

Ela passou deixando após o rastro do seu perfume/atrás de si o rastro do seu seu perfume.

d) depois (de), atrás (de), detrás (de):

O teatro que vocês procuram fica depois/atrás/daquela daquela praça.

e) depois, além disso, ademais:

Nada falaria sobre sua vida privada, depois/além disso/ademais, isso não vinha ao caso.

Naturalmente, as informações contidas neste post não são exaustivas, cabendo, portanto, ao estudante consultar o dicionário ou uma boa gramática, sempre que houver dúvidas.

Até breve e bons estudos!

Claudia V. Lopes

Se gostou do post, deixe um comentário. Sugestões são sempre bem-vindas.

 

Expressões de tempo “desde” e “há”

TEMPO

Olá, pessoal!

No nosso post de hoje, iremos ver alguns usos das expressões de tempo “desde” e ““, portanto, prestem muito atenção nos exemplos. Embora essas expressões indiquem tempo decorrido, devemos ter cuidado para não usar uma no lugar da outra.

As expressões de tempo “desde” e “” relacionam-se com o presente e o passado.

DESDE (preposição) – combinação da antiga preposição des (< lat. de ex), já documentada no século XIII, com a preposição de.

a) a partir de (no espaço, no tempo); a datar de, etc.:

Chovia desde a Bahia até o Espirito Santo.
Estou trabalhando desde cedo.
Estou a esperar por vocês desde as duas horas da tarde.
Vive na França desde os cinco anos.
Cristina mora na Espanha desde 1996.

Obs.: Estou esperando por você desde as 5h da tarde e NÃOdesde às 5h da tarde“. DESDE é uma preposição que se refere a movimento ou extensão a partir de um ponto e deve ser acompanhada por um ARTIGO.

trabalhar

(Créditos da imagem – Cygnus)

– do verbo HAVER, com sentido impessoal: ter transcorrido ou ser transcorrido (tempo), com o verbo SEMPRE na terceira pessoa do singular:

Estiveram na Itália cinco anos.
Frequento a universidade de letras três anos.
dias que não o vejo.
Não a vemos mais de duas semanas.
Estou sem comer 6 horas.

Obs.: as mesmas frases poderiam ser escritas utilizando o verbo “fazer” com sentido de tempo transcorrido, com o verbo na terceira pessoa do singular – Faz cinco anos que estive na Itália; faz três anos que frequento a universidade de letras.

Exercícios – complete os espaços em branco com as expressões de tempo “desde” e ““:

a) Estou trabalhando …………. as 6 horas da manhã.

b)…………… dias que me sinto assim cansada, acho que preciso de férias.

c) ……………. quando vocês não se falam? ……………. o ano passado.

d) …………….. quanto tempo seus pais vivem nos Estados Unidos?

e) Estamos esperando o ônibus para o centro da cidade ……………. mais de 20 minutos!

f) Eles vivem no Brasil ………………… 2007.

h) ……………………. quando você trabalha aqui?

i) Não saímos juntos ………………. muito tempo.

Até breve e bons estudos!

Alguns usos do advérbio “já”

Livro

Olá, pessoal!

No nosso post de hoje, iremos estudar alguns usos do advérbio ““. Logo, peço que prestem atenção em cada exemplo, pois somente assim será possível entender, de uma vez por todas, como e quando usá-lo. Para facilitar a compreensão, os exemplos foram traduzidos em italiano. Para as próximas vezes, faremos a tradução em outras línguas

O advérbio “já” é usado em situações no presente, passado ou futuro, como veremos a seguir.

  • imediato, prontamente, incontinente:
Saiam  daqui! Andate subito via di qui!
  • desde logo, então:
Se estiver de plantão no dia da festa, fica já desculpada por não vir. Se sarai di turno nel giorno della festa, sei già scusata per non venire.
  • neste instante, agora:
 consigo imaginar como será a nossa viagem de lua de mel. Ormai riesco ad immaginare come sarà la nostra luna di miele.
  • neste instante, agora:
– Está vendo aquela ilha?

– Sim,  consigo vê-la ao longe.

– Vedi quell’isola?

– Sì, ormai la vedo in lontananza.

  • logo, em pouco tempo, num instante:
Ana saiu dizendo que voltava . Anna se n’è andata dicendo che tornava presto.
  • antes, anteriormente; antecipadamente:
 li este livro no ano passado. Ho già letto questo libro l’anno scorso.

Até breve e bons estudos!

Se gostaram do post e quiserem dar ideias para os próximos, deixem as sugestões nos comentários. 

Castro Alves – O Navio Negreiro (Tragédia no mar)

Caros amigos,

Hoje compartilhamos com vocês “O navio negreiro”, poema de autoria de um dos mais importantes poetas do Romantismo Brasileiro do século XIX chamado Castro Alves  (Muritiba, 14 de março de 1847 – Salvador, 6 de julho de 1871), considerado o maior defensor do abolicionismo, por isso mesmo, denominado “O poeta dos escravos”.

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(Créditos da imagem – Wikipédia)

Castro Alves destaca-se na poesia de caráter social. É o poeta da liberdade, denunciando desigualdades sociais, lutando sempre a favor dos oprimidos. Além da poesia de caráter social, Castro Alves destaca-se como autor de poemas líricos-amorosos em que o amor e a mulher são menos idealizados. (Literatura Brasileira, Faraco e Moura)

No poema é descrito um cenário apocalíptico de muita dor e sofrimento dum povo – africanos escravizados – levado à força para o outro lado do oceano em condições desumanas. As cenas, detalhadamente descritas, são contemporâneas, se comparadas à atual emergência humanitária que assistimos todos os dias na televisão: seres humanos que fogem de sua terra natal em função das guerras constantes e de bombardeamentos, que arriscam a vida em embarcações rumo à viagem da esperança. Seres humanos desfrutados por outros seres, mas não humanos, responsáveis pelo tráfico desumano de pessoas.

navio negreiro

(créditos da imagem – Uol educacional)

O Navio Negreiro
(Tragédia no mar)

‘Stamos em pleno mar… Doudo no espaço
Brinca o luar — dourada borboleta;
E as vagas após ele correm… cansam
Como turba de infantes inquieta.

‘Stamos em pleno mar… Do firmamento
Os astros saltam como espumas de ouro…
O mar em troca acende as ardentias,
— Constelações do líquido tesouro…

‘Stamos em pleno mar… Dois infinitos
Ali se estreitam num abraço insano,
Azuis, dourados, plácidos, sublimes…
Qual dos dous é o céu? qual o oceano?…

‘Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas
Ao quente arfar das virações marinhas,
Veleiro brigue corre à flor dos mares,
Como roçam na vaga as andorinhas…

Donde vem? onde vai? Das naus errantes
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?
Neste saara os corcéis o pó levantam,
Galopam, voam, mas não deixam traço.

Bem feliz quem ali pode nest’hora
Sentir deste painel a majestade!
Embaixo — o mar em cima — o firmamento…
E no mar e no céu — a imensidade!

Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!
Que música suave ao longe soa!
Meu Deus! como é sublime um canto ardente
Pelas vagas sem fim boiando à toa!

Homens do mar! ó rudes marinheiros,
Tostados pelo sol dos quatro mundos!
Crianças que a procela acalentara
No berço destes pélagos profundos!

Esperai! esperai! deixai que eu beba
Esta selvagem, livre poesia,
Orquestra — é o mar, que ruge pela proa,
E o vento, que nas cordas assobia…
………………………………………………….
Por que foges assim, barco ligeiro?
Por que foges do pávido poeta?
Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira
Que semelha no mar — doudo cometa!

Albatroz! Albatroz! águia do oceano,
Tu que dormes das nuvens entre as gazas,
Sacode as penas, Leviathan do espaço,
Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas.

II

Que importa do nauta o berço,
Donde é filho, qual seu lar?
Ama a cadência do verso
Que lhe ensina o velho mar!
Cantai! que a morte é divina!
Resvala o brigue à bolina
Como golfinho veloz.
Presa ao mastro da mezena
Saudosa bandeira acena
As vagas que deixa após.

Do Espanhol as cantilenas
Requebradas de langor,
Lembram as moças morenas,
As andaluzas em flor!
Da Itália o filho indolente
Canta Veneza dormente,
— Terra de amor e traição,
Ou do golfo no regaço
Relembra os versos de Tasso,
Junto às lavas do vulcão!

O Inglês — marinheiro frio,
Que ao nascer no mar se achou,
(Porque a Inglaterra é um navio,
Que Deus na Mancha ancorou),
Rijo entoa pátrias glórias,
Lembrando, orgulhoso, histórias
De Nelson e de Aboukir.. .
O Francês — predestinado —
Canta os louros do passado
E os loureiros do porvir!

Os marinheiros Helenos,
Que a vaga jônia criou,
Belos piratas morenos
Do mar que Ulisses cortou,
Homens que Fídias talhara,
Vão cantando em noite clara
Versos que Homero gemeu…
Nautas de todas as plagas,
Vós sabeis achar nas vagas
As melodias do céu!…

III
Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!
Desce mais … inda mais… não pode olhar humano
Como o teu mergulhar no brigue voador!
Mas que vejo eu aí… Que quadro d’amarguras!
É canto funeral! … Que tétricas figuras! …
Que cena infame e vil… Meu Deus! Meu Deus! Que horror!
IV
Era um sonho dantesco… o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros… estalar de açoite…
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar…

Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras moças, mas nuas e espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs!

E ri-se a orquestra irônica, estridente…
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais …
Se o velho arqueja, se no chão resvala,
Ouvem-se gritos… o chicote estala.
E voam mais e mais…

Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece,
Outro, que martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!

No entanto o capitão manda a manobra,
E após fitando o céu que se desdobra,
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
“Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!…”

E ri-se a orquestra irônica, estridente. . .
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais…
Qual um sonho dantesco as sombras voam!…
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
E ri-se Satanás!…
V
Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura… se é verdade
Tanto horror perante os céus?!
Ó mar, por que não apagas
Co’a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?…
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!

Quem são estes desgraçados
Que não encontram em vós
Mais que o rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz?
Quem são? Se a estrela se cala,
Se a vaga à pressa resvala
Como um cúmplice fugaz,
Perante a noite confusa…
Dize-o tu, severa Musa,
Musa libérrima, audaz!…

São os filhos do deserto,
Onde a terra esposa a luz.
Onde vive em campo aberto
A tribo dos homens nus…
São os guerreiros ousados
Que com os tigres mosqueados
Combatem na solidão.
Ontem simples, fortes, bravos.
Hoje míseros escravos,
Sem luz, sem ar, sem razão…

São mulheres desgraçadas,
Como Agar o foi também.
Que sedentas, alquebradas,
De longe… bem longe vêm…
Trazendo com tíbios passos,
Filhos e algemas nos braços,
N’alma — lágrimas e fel…
Como Agar sofrendo tanto,
Que nem o leite de pranto
Têm que dar para Ismael.

Lá nas areias infindas,
Das palmeiras no país,
Nasceram crianças lindas,
Viveram moças gentis…
Passa um dia a caravana,
Quando a virgem na cabana
Cisma da noite nos véus …
…Adeus, ó choça do monte,
…Adeus, palmeiras da fonte!…
…Adeus, amores… adeus!…

Depois, o areal extenso…
Depois, o oceano de pó.
Depois no horizonte imenso
Desertos… desertos só…
E a fome, o cansaço, a sede…
Ai! quanto infeliz que cede,
E cai p’ra não mais s’erguer!…
Vaga um lugar na cadeia,
Mas o chacal sobre a areia
Acha um corpo que roer.

Ontem a Serra Leoa,
A guerra, a caça ao leão,
O sono dormido à toa
Sob as tendas d’amplidão!
Hoje… o porão negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar…
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar…

Ontem plena liberdade,
A vontade por poder…
Hoje… cúm’lo de maldade,
Nem são livres p’ra morrer. .
Prende-os a mesma corrente
— Férrea, lúgubre serpente —
Nas roscas da escravidão.
E assim zombando da morte,
Dança a lúgubre coorte
Ao som do açoute… Irrisão!…

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus,
Se eu deliro… ou se é verdade
Tanto horror perante os céus?!…
Ó mar, por que não apagas
Co’a esponja de tuas vagas
Do teu manto este borrão?
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!…

VI
Existe um povo que a bandeira empresta
P’ra cobrir tanta infâmia e cobardia!…
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!…
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio. Musa… chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto!…
Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança…
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!…

Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu nas vagas,
Como um íris no pélago profundo!
Mas é infâmia demais! … Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares!

São Paulo, 18 de abril de 1869.
(O Poeta, nascido em 14.03.1847,
tinha apenas 22 anos de idade)